NÓS ESCREVEMOS CARTAS

ARTICLE — 2015


A carta parece ser a unidade mínima mais democrática para a construção de uma narrativa. Ainda que dentro de um pensamento-em-linha, como diria o filósofo Vilém Flusser em seu Mundo Codificado. A experiência dada nessa construção visual possui sua própria atmosfera, apresenta sua mancha de texto, o uso de um tipo muito particular impresso manualmente em um papel específico. E se observarmos a "baixa tiragem" ela é, por assim dizer, uma edição exclusiva. É fruto de processos manuais e, uma segunda carta, ainda que apresente o mesmo conteúdo, provavelmente terá pequenas diferenças, preciosas imperfeições conseguidas pela mão de quem se debruça sobre o desenho de cada letra. Essa pequena provocação apresenta um pouco do que pensamos quanto aos processos criativos no campo do design.

Quando nos apropriamos dessas etapas e tomamos consciência delas, ainda que na simples confecção de uma carta, inserimos em seu resultado uma aura muito própria, capaz de respostas mais adequadas e sensíveis. Passada a revolta com a tecnologia e o estabelecimento de um senso artesanal, somos capazes de desfrutar de dois mundos para experimentar e construir experiências mais autênticas.

Os processos manuais e digitais construíram um novo ambiente de trabalho, talvez mais democrático. Esperamos que os designers encontrem tempo e espaço para utilizarem a sinergia gerada por esses campos. Outrora recebi de um professor a seguinte revelação quanto ao abandono de certas práticas: o não aproveitamento e conhecimento do aspecto artesanal roubou a sensualidade do design. A carta não será a mesma se for escrita dentro de um software e enviada por e-mail. Será? Talvez seja uma experiência frustrante recebê-la desta forma.

Acreditamos que os processos manuais são bases sólidas para o design gráfico. É um caminho natural. Movimentos como o Do It Yourself (DIY) e Cultura Livre (Free Culture), por exemplo, são claras expressões de um sentimento involuntário e democrático imersos em construções vernaculares manuais. Não é este um posicionamento raso sobre a máquina, mas um começo sobre o começo. Sobre escrever à mão e escolher papéis, sobre fazer escolhas e não ser refém das opções que são dadas pelo painel de ferramentas. No fundo, nós escrevemos cartas. Bem vindos a este espaço!



CARTA.
Substantivo feminino. Mensagem, manuscrita ou impressa, a uma pessoa ou a uma organização, para comunicar-lhe algo.